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É possível resistir à linguagem do poder

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.07.08

 

O que mais impressiona em The Little Foxes é a linguagem do poder e da manipulação, perfeitamente visível num clã sulista, os Hubbard, comandados pela irmã (magnífica Bette Davies).

Esta mulher dominadora tentará domesticar a filha como pensa ter domesticado o marido. Pura ilusão, este homem suave e de saúde frágil segue valores sólidos, dos quais não irá abdicar nunca. Sim, ao marido terá mesmo de o neutralizar.

É que para conseguir levar a cabo os seus planos ambiciosos, esta mulher utiliza todos os recursos possíveis da paleta: insinua-se, seduz, manipula e recorre à chantagem. É assim que consegue dominar o seu pequeno mundo: os irmãos, o sobrinho e, por arrastamento, a cunhada. O grande negócio está prestes a ser conseguido. O acesso à alta sociedade da grande cidade também.

 

É certo que a filha (comovente Teresa Wright) já mimetiza, de certa forma, os seus tiques de snobismo e de arrogância. Mas no final serão os valores do pai e do namorado que prevalecem, sobre a influência materna. Sim, a filha resiste-lhe no final e escolhe o caminho da vida real, dos afectos e do respeito pelos outros.

Impressionante confronto entre uma Bette Davies subitamente solitária, subitamente assustada, no cimo da escadaria, e uma comovente Teresa Wright em baixo, no "hall", a olhar para cima, tão jovem, tão doce, tão magoada, e no entanto, tão forte, a despedir-se da mãe.

Trata-se da opção pela vida, pela liberdade, pela autonomia. Aqui vemos o perfeito contraste com a linguagem do poder, da manipulação, da dependência. É esta, a meu ver, a ideia central do filme. O mais forte é, no final de contas, o mais fraco; o que pensávamos mais fraco é afinal, o mais forte.

 

Mas não nos iludamos: a linguagem do poder, na sua voracidade insaciável, faz estragos. O amado pai da nossa jovem jaz, morto, lá em cima, no seu quarto. E por pouco também ela própria se podia ter deixado enredar na terrível influência materna e ter-se transformado numa sua segunda versão, anulando todas as possibilidades de crescer, de se autonomizar, de se afirmar de forma saudável, de amar e ser amada.

Na cena final vemo-la com o namorado, pelo pátio exterior da casa, na noite chuvosa. Numa das janelas, o rosto impressionante da mãe, a vê-los afastar-se.

 

 

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publicado às 15:13

"Aqueles Verões salvaram-me a vida..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.03.08

 

A Good Yearé uma história muito simples. No fundo, é sobre a vida, a amizade, o amor. Os dias felizes.

A personagem dirá a meio: Aqueles Verões salvaram-me a vida. A vida, que o nosso herói vê perfeitamente no dilema que lhe é colocado pelo chefe: É só escolher… o dinheiro… ou a vida.

E tudo se compõe porque a base estava lá. O tio, a casa, a vinha, a amizade, a vida afinal.

O excêntrico tio que um dia na adega perguntara ao sobrinho: “O que é mais importante na comédia?” E a resposta certa: “O timing.”

Em Ridley Scott o timing é fundamental. Assim como a noção de ritmo: rápido ou lento, aos solavancos ou em valsa, sincopado ou deslizante. E tudo no tempo certo.

Numa linguagem tão complexa e diversa, como é a do cinema, pode contar-se uma história de mil e uma formas. E é isso que o torna fascinante.

 

 

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publicado às 12:40

O indivíduo e a comunidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.07

Em It’s a Wonderful Life não é só recuperar a vida, é dar-lhe um novo sentido. É entender todo o percurso.

O que parece uma série de cedências, de desistências, de sonhos desfeitos ou adiados, transforma-se no essencial da sua vida. O que parece um terrível falhanço, de oportunidades perdidas, ganha uma dimensão maior, de comunidade. Aquele homem tocara a vida das pessoas mais próximas e, sem o saber, de muitas outras vidas.

Os diálogos em Capra… as personagens… o tempo certo, a magnífica gestão do tempo e das ideias…

E as pequeninas coisas, a dimensão que ganham na vida de uma pessoa. O corrimão a precisar de arranjo, as pétalas da flor da filha. Capra entende a alma humana, os desejos, os sonhos, as angústias, as dúvidas, as frustrações.

E propõe uma verdadeira reviravolta na lógica inexorável da evolução humana. Aqui o essencial permanece: a amizade, o valor da vida, a lealdade, a gratidão.

Mas já repararam bem com que modelo de cidade e de estilo de vida se assemelham as nossas cidades actuais? Capra soube prevê-lo nos anos 40. Está lá tudo ou quase tudo. Não é fascinante?

 

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publicado às 16:30

Mr. Smith Goes to Washington

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.11.07

Os melhores filmes dos anos 30 e 40 passaram na RTP nos anos 60, 70 e, mais tarde, em vários ciclos na RTP2. O que aconteceu entretanto para nada voltar a ser como dantes?

Frank Capra passa agora apenas no Natal: It's a Wonderful Life

Criticado como um idealista, Capra é muito mais do que um idealista. E ser idealista é ser menor? A meu ver, ter um ideal é fundamental. Apontar para uma qualquer existência com qualidade para todos, é fundamental. Defender a dignidade de cada indivíduo, é fundamental. Lembrar valores como autenticidade, maturidade, responsabilidade, autonomia, amizade, lealdade, é fundamental.

Mr. Smith Goes to Washington revela precisamente o choque de um idealista com a realidade do poder. Capra dá a volta à situação. E se… bastasse um idealista para desmontar negócios pouco claros, jogos de interesses? Se bastasse um idealista para devolver os valores autênticos àquele espaço nobre, o Congresso?

Capra desmonta a realidade social e ao fazê-lo de uma forma suave ou romântica, isso não lhe retira a eficácia. A mensagem passa.

A montagem das cenas, a gestão do tempo, a utilização do guião, são perfeitas. Nem pesada, nem leve demais, nem apressada, nem lenta. E isso é de génio. Onde é que voltámos a ter aqueles diálogos em cinema?

Capra dá ao indivíduo uma dimensão significativa na comunidade. O indivíduo pode resistir a ser diluído ou mesmo triturado pela comunidade, pelo grupo, pelo poder. Ele tem um lugar. Ele existe. Há um equilíbrio entre o indivíduo e a comunidade. Apoiam-se mutuamente. Para Capra isso é possível. E nós também desejamos que assim seja.

 

 

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publicado às 12:08


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